Até aqui nos ajudou o Senhor

Resta-nos apenas a violência

04/12/2019

Entre o fim do século XVIII e início do século XIX nascia na França o folhetim. Escritores que não possuíam recursos para arcar com os custos da impressão, de uma a edição, de um livro, pagavam pela impressão de algumas centenas de cópias de um único capítulo e saíam a vendê-las pelas ruas. Com o dinheiro apurado pagavam a impressão do capítulo seguinte e voltavam às ruas para as novas vendas. Dessa forma nasceram importantes romances da literatura universal.

Os romancistas ouviam críticas sobre o curso da obra à medida que a iam construindo. Os leitores queixavam-se de um vilão excessivamente cruel ou do também excessivo sofrimento de uma donzela. Conclamavam que os heróis tivessem ações mais decididas e exigiam um final feliz!

Os autores não ficavam isentos aos comentários. Não raro, conduziam a história segundo as paixões dos leitores. Nasceu assim o folhetim, parente distante de nossas novelas.

Uma característica do romantismo do século XIX era o eterno enfrentamento do bem contra o mal, com a invariável vitória do bem. Terríveis vilões terminavam sendo execrados por todos, na prisão, ou com a morte terrível. Os heróis e suas amadas viviam tormentos inomináveis, dor e sofrimento, porém, ao final da história, eram recompensados com o amor desejado e o reconhecimento de seu valor. A justiça era estabelecida e o final feliz.

No Brasil, após seu surgimento no rádio, a novela encontrou seu apogeu na televisão. A princípio na extinta TV TUPI e logo depois na TV GLOBO. Hoje a novela é um fenômeno de comunicação e alcança centenas de países no mundo. Seguimos os romances do século XIX e, folhetim e novela, se mesclaram de forma completa. Todos esperavam ao fim a derrota do mal e a vitória do bem, da justiça e do amor. Muitas terminavam em um beijo que selava esta vitória.

Na década de 70 as novelas refletiam o discurso ufanista de que o Brasil era o país do futuro e que em breve seria a maior nação do mundo. Em "Selva de Pedra" o personagem Cristiano Vilhena representava o próprio Brasil. Um jovem, vindo do interior, que apesar de um começo pouco honesto, vence a partir do trabalho e da competência. Era o próprio país. Todos realmente acreditavam que um dia seríamos o maior país do mundo.

Talvez, a primeira vez que uma novela tenha rompido com este modelo "bem vencendo o mal" seja "Vale Tudo", da Rede Globo. Em seu último capítulo o vilão Marco Aurélio foge após o desvio de dinheiro de uma grande empresa e dá uma "banana" para o Brasil. Maria de Fátima, a outra principal vilã, e seu amante César, casa-se com um nobre italiano homossexual formando um alegre trio amoroso. Não deixou de ser charmoso e tinha algo de profético.

"Vale Tudo" refletia a desilusão do povo brasileiro com a hiperinflação e a "década perdida". A desilusão com políticos corruptos e uma sociedade marcada pela injustiça social.

Na semana que se encerrou vimos o último capítulo de "A Dona do Pedaço". Também nesta obra a principal vilã , Josiane, após o que parecia ser um final justo, na prisão, reverte seu destino. Josiane simula uma conversão religiosa e consegue benesses que lhe devolvem a liberdade. Após enganar a todos com a pseudo religiosidade, assassina Régis, que a havia ajudado, para ficar livre e seduzir um novo personagem, rico.

A cena final mostra a face da personagem com os glóbulos dos olhos enegrecidos e lábios ressecados. Uma figura monstruosa. A imagem do mal. O que este final nos revela? O que ele quer nos dizer?

Teríamos finalmente deixado de acreditar na vitória do bem sobre o mal? Teria o Brasil desistido do sonho?

Sim. Não acreditamos mais na construção de uma sociedade justa. Não acreditamos na vitória do bem sobre o mal. Não acreditamos no grande futuro. Só nos resta a dura realidade. Resta-nos apenas a violência

Colaborador. Professor Marcos Rodrigues - RJ